
O livro “1968 - O ano que não terminou” de Zuenir Ventura está completando 20 anos de seu lançamento. A obra se tornou um marco na literatura brasileira por descrever com detalhes uma época que deixou muitas histórias. Moradores de Volta Redonda comentaram sobre o livro e a época em que a história se passa.
De acordo com a professora universitária Marlene Fernandes, a cidade vinha sofrendo uma série de conflitos dos anos anteriores, como 64. “Aparentemente não demonstravam, mas no sindicato e na igreja havia ares de movimento. O teatro vinculado à igreja também foi um exemplo de revolta que atingiu a região, pois questionavam a falta de liberdade”, disse a professora.
O aposentado Carlos Alberto Ribeiro, 60 anos, disse que se tornou um grande fã de Zuenir depois que leu o livro. “O livro descreve com riqueza de detalhes o momento tenso em que o país se encontrava. Fiquei muito feliz em poder conhecer o Zuenir em uma apresentação que ele fez na cidade há pouco tempo”, afirmou.
O universitário Bruno Pereira Gomes, 22 anos, não viveu o ano de 1968, mas leu o livro de Zuenir Ventura e entrou para a lista de fãs. “É uma fase muito importante na história do Brasil. Todos deviam ler esta obra”, disse o universitário.
A obra, que foi baseada em experiências vividas trabalhando em vários jornais e revistas da época, reconstitui o ano de 1968 no Brasil - de uma época e de seus heróis, de seus dramas e paixões, de suas lutas e vitórias. Testemunha e participante daqueles tempos de exaltação, Zuenir criou uma grande reportagem sobre uma época de grandes sonhos.
Foi o ano enigmático do nosso século. Ninguém o previu e muito poucos os que dele participaram entenderam afinal o que ocorreu. Deu-se uma espécie de furacão humano, uma generalizada e estridente insatisfação juvenil, que varreu o mundo em todas as direções. Seu único antepassado foi 1848 quando também uma maré revolucionária - a “Primavera dos Povos” -, iniciada em Paris em fevereiro, espalhou-se por quase todas as capitais e grandes cidades da Europa, chegando até o Recife no Brasil.
Tornou-se um ano mítico porque foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais, que afetaram as sociedades da época de uma maneira irreversível. Seria o marco para os movimentos ecologistas, feministas, das organizações não-governamentais (ONGs) e dos defensores das minorias e dos direitos humanos. Frustrou muita gente também. A não realização dos seus sonhos, “da imaginação chegando ao poder”, fez com que parte da juventude militante daquela época se refugiasse no consumo das drogas ou escolhesse a estrada da violência, da guerrilha e do terrorismo urbano.
Foi também uma reação extremada, juvenil, às pressões de mais de vinte anos de Guerra Fria. Uma rejeição aos processos de manipulação da opinião pública por meio dos mass-midia que atuavam como “aparelhos ideológicos” incutindo os valores do capitalismo, e, simultaneamente, um repúdio “ao socialismo real”, ao marxismo oficial, ortodoxo, vigente no leste Europeu, e entre os PCs europeus ocidentais, vistos como ultrapassados.Assemelhou-se aquele ano aloucado a um calidoscópio, para qualquer lado que se girasse novas formas e novas expressões vinham à luz. Foi uma espécie de fissão nuclear espontânea que abalou as instituições e regimes. Uma revolução que não se socorreu de tiros e bombas, mas da pichação, das pedradas, das reuniões de massa, do alto-falante e de muita irreverência. Tudo o que parecia sólido desmanchou-se no ar.
Zuenir Ventura revê 68 olhando para o presente
Em 1988, Zuenir Ventura publicou “1968 - O Ano que Não Terminou”, que já chegou à marca de 400 mil exemplares vendidos. Em 2008, o jornalista lança uma edição revisada de seu best-seller com “1968 - O Que Fizemos de Nós”, livro que não pretende ocupar a nova data redonda apenas com mais um balanço do que aconteceu há quatro décadas.
Ao rever o primeiro “1968”, Zuenir concebeu um segundo em que buscasse, segundo ele, “continuidades e rupturas” entre a quase mítica “geração de 68” e jovens de hoje.
“Não há hoje “a” geração. Há tribos, galeras, turmas. Por isso, achei que a estrutura não devia ter uma ordem rígida. É mais fragmentada’’, diz ele, referindo-se à primeira metade do livro, em que faz pequenas reportagens para retratar os tempos atuais e pô-los em contraste com 68 - na segunda metade, entrevista nomes importantes da época falando de ontem e hoje.
- Quis corrigir um pouco essa má vontade que a gente tem com a nova geração. Também era assim em 68, mas os jovens eram muito agressivos e respondiam: “não confie em ninguém com mais de 30 anos’’. O João Batista Ferreira, ex-padre que era um dos poucos com mais de 30 em quem os jovens confiavam e que hoje é psicanalista de jovens, diz que há um 68 dentro de 2008 e nos conclama a ter um olhar mais generoso. Precisamos lavar os olhos e tentar entender o que eles são, o que eles querem - afirma o autor.
Zuenir foi a campo, então, e procurou entender o culto ao corpo dos dias de hoje, da obsessão pela magreza aos piercings, como mostra o capítulo “Viva o Corpo Brasileiro”.
Mas o investimento maior está nas 30 páginas de “Sexo, Drogas e Rave’’. Ele relata, com doses de humor e espanto, sua ida a uma grande festa embalada a música eletrônica e ecstasy, e elege as raves como emblema da juventude atual.
- Você encontra nesse tipo de festa o que eu chamo de busca meio agônica do paroxismo; ou seja, da vertigem, da voragem, do risco. Ao mesmo tempo em que é uma coisa coletiva, as pessoas ficam muito ensimesmadas, mais preocupadas com elas do que com os outros. Há um narcisismo - diz.
Ele, no entanto, não aponta no livro nenhum dedo condenatório para esses jovens e vê seu comportamento como quase natural, já que os projetos coletivos, especialmente os políticos, não fascinam mais.
Dos desdobramentos positivos de 68, Zuenir Ventura destaca vários no livro, como o maior respeito às preferências sexuais e aos direitos da mulher, e o fortalecimento dos movimentos negro e gay. Na ala negativa, estão a violência “acreditava-se numa violência edificante, pedagógica, o que dava a você o direito de ser violento, mas não ao outro, e hoje sabemos que toda violência gera violência’’ e as drogas “havia uma certa utopia ingênua ao achar que as drogas poderiam ser um instrumento de abertura das consciências. Mas essa realidade se mostrou perversa. No fundo, há uma multinacional das drogas que gera mortes. É uma tragédia deste século que herdamos do anterior’’, diz ele.
Entrevistas
A segunda parte do livro tem sete entrevistas. Começa com Heloisa Buarque de Hollanda, crítica literária que sediou o Réveillon que abria “O Ano que Não Terminou’’, e termina com José Dirceu, líder estudantil preso em 68, libertado graças ao seqüestro do embaixador americano em 69 -do qual participaram Franklin Martins e Fernando Gabeira, também entrevistados- e que teve o mandato de deputado federal cassado em 2005 sob suspeita de comandar o mensalão.
César Benjamim, preso por cinco anos durante a ditadura militar e hoje um cientista político dissidente do PT, conta uma história que, embora não inédita, é pouco conhecida: Lula teria jantado e “derrubado três litros de uísque’’ com Alberico Souza Cruz dias depois do debate com Fernando Collor, no segundo turno da eleição presidencial de 1989. Alberico era satanizado pelos petistas por ter sido o principal responsável pela edição (favorável a Collor) do debate exibido nos telejornais da TV Globo. “Não vou brigar com a Globo, não é, Cesinha?’’, teria dito o hoje presidente da República.
Na entrevista de Caetano Veloso, está, para Zuenir, a frase que resume melhor a possibilidade de um “novo 68’’: “Para ser [uma coisa] parecida com aquilo, tem de ser muito diferente daquilo’’.
De acordo com a professora universitária Marlene Fernandes, a cidade vinha sofrendo uma série de conflitos dos anos anteriores, como 64. “Aparentemente não demonstravam, mas no sindicato e na igreja havia ares de movimento. O teatro vinculado à igreja também foi um exemplo de revolta que atingiu a região, pois questionavam a falta de liberdade”, disse a professora.
O aposentado Carlos Alberto Ribeiro, 60 anos, disse que se tornou um grande fã de Zuenir depois que leu o livro. “O livro descreve com riqueza de detalhes o momento tenso em que o país se encontrava. Fiquei muito feliz em poder conhecer o Zuenir em uma apresentação que ele fez na cidade há pouco tempo”, afirmou.
O universitário Bruno Pereira Gomes, 22 anos, não viveu o ano de 1968, mas leu o livro de Zuenir Ventura e entrou para a lista de fãs. “É uma fase muito importante na história do Brasil. Todos deviam ler esta obra”, disse o universitário.
A obra, que foi baseada em experiências vividas trabalhando em vários jornais e revistas da época, reconstitui o ano de 1968 no Brasil - de uma época e de seus heróis, de seus dramas e paixões, de suas lutas e vitórias. Testemunha e participante daqueles tempos de exaltação, Zuenir criou uma grande reportagem sobre uma época de grandes sonhos.
Foi o ano enigmático do nosso século. Ninguém o previu e muito poucos os que dele participaram entenderam afinal o que ocorreu. Deu-se uma espécie de furacão humano, uma generalizada e estridente insatisfação juvenil, que varreu o mundo em todas as direções. Seu único antepassado foi 1848 quando também uma maré revolucionária - a “Primavera dos Povos” -, iniciada em Paris em fevereiro, espalhou-se por quase todas as capitais e grandes cidades da Europa, chegando até o Recife no Brasil.
Tornou-se um ano mítico porque foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais, que afetaram as sociedades da época de uma maneira irreversível. Seria o marco para os movimentos ecologistas, feministas, das organizações não-governamentais (ONGs) e dos defensores das minorias e dos direitos humanos. Frustrou muita gente também. A não realização dos seus sonhos, “da imaginação chegando ao poder”, fez com que parte da juventude militante daquela época se refugiasse no consumo das drogas ou escolhesse a estrada da violência, da guerrilha e do terrorismo urbano.
Foi também uma reação extremada, juvenil, às pressões de mais de vinte anos de Guerra Fria. Uma rejeição aos processos de manipulação da opinião pública por meio dos mass-midia que atuavam como “aparelhos ideológicos” incutindo os valores do capitalismo, e, simultaneamente, um repúdio “ao socialismo real”, ao marxismo oficial, ortodoxo, vigente no leste Europeu, e entre os PCs europeus ocidentais, vistos como ultrapassados.Assemelhou-se aquele ano aloucado a um calidoscópio, para qualquer lado que se girasse novas formas e novas expressões vinham à luz. Foi uma espécie de fissão nuclear espontânea que abalou as instituições e regimes. Uma revolução que não se socorreu de tiros e bombas, mas da pichação, das pedradas, das reuniões de massa, do alto-falante e de muita irreverência. Tudo o que parecia sólido desmanchou-se no ar.
Zuenir Ventura revê 68 olhando para o presente
Em 1988, Zuenir Ventura publicou “1968 - O Ano que Não Terminou”, que já chegou à marca de 400 mil exemplares vendidos. Em 2008, o jornalista lança uma edição revisada de seu best-seller com “1968 - O Que Fizemos de Nós”, livro que não pretende ocupar a nova data redonda apenas com mais um balanço do que aconteceu há quatro décadas.
Ao rever o primeiro “1968”, Zuenir concebeu um segundo em que buscasse, segundo ele, “continuidades e rupturas” entre a quase mítica “geração de 68” e jovens de hoje.
“Não há hoje “a” geração. Há tribos, galeras, turmas. Por isso, achei que a estrutura não devia ter uma ordem rígida. É mais fragmentada’’, diz ele, referindo-se à primeira metade do livro, em que faz pequenas reportagens para retratar os tempos atuais e pô-los em contraste com 68 - na segunda metade, entrevista nomes importantes da época falando de ontem e hoje.
- Quis corrigir um pouco essa má vontade que a gente tem com a nova geração. Também era assim em 68, mas os jovens eram muito agressivos e respondiam: “não confie em ninguém com mais de 30 anos’’. O João Batista Ferreira, ex-padre que era um dos poucos com mais de 30 em quem os jovens confiavam e que hoje é psicanalista de jovens, diz que há um 68 dentro de 2008 e nos conclama a ter um olhar mais generoso. Precisamos lavar os olhos e tentar entender o que eles são, o que eles querem - afirma o autor.
Zuenir foi a campo, então, e procurou entender o culto ao corpo dos dias de hoje, da obsessão pela magreza aos piercings, como mostra o capítulo “Viva o Corpo Brasileiro”.
Mas o investimento maior está nas 30 páginas de “Sexo, Drogas e Rave’’. Ele relata, com doses de humor e espanto, sua ida a uma grande festa embalada a música eletrônica e ecstasy, e elege as raves como emblema da juventude atual.
- Você encontra nesse tipo de festa o que eu chamo de busca meio agônica do paroxismo; ou seja, da vertigem, da voragem, do risco. Ao mesmo tempo em que é uma coisa coletiva, as pessoas ficam muito ensimesmadas, mais preocupadas com elas do que com os outros. Há um narcisismo - diz.
Ele, no entanto, não aponta no livro nenhum dedo condenatório para esses jovens e vê seu comportamento como quase natural, já que os projetos coletivos, especialmente os políticos, não fascinam mais.
Dos desdobramentos positivos de 68, Zuenir Ventura destaca vários no livro, como o maior respeito às preferências sexuais e aos direitos da mulher, e o fortalecimento dos movimentos negro e gay. Na ala negativa, estão a violência “acreditava-se numa violência edificante, pedagógica, o que dava a você o direito de ser violento, mas não ao outro, e hoje sabemos que toda violência gera violência’’ e as drogas “havia uma certa utopia ingênua ao achar que as drogas poderiam ser um instrumento de abertura das consciências. Mas essa realidade se mostrou perversa. No fundo, há uma multinacional das drogas que gera mortes. É uma tragédia deste século que herdamos do anterior’’, diz ele.
Entrevistas
A segunda parte do livro tem sete entrevistas. Começa com Heloisa Buarque de Hollanda, crítica literária que sediou o Réveillon que abria “O Ano que Não Terminou’’, e termina com José Dirceu, líder estudantil preso em 68, libertado graças ao seqüestro do embaixador americano em 69 -do qual participaram Franklin Martins e Fernando Gabeira, também entrevistados- e que teve o mandato de deputado federal cassado em 2005 sob suspeita de comandar o mensalão.
César Benjamim, preso por cinco anos durante a ditadura militar e hoje um cientista político dissidente do PT, conta uma história que, embora não inédita, é pouco conhecida: Lula teria jantado e “derrubado três litros de uísque’’ com Alberico Souza Cruz dias depois do debate com Fernando Collor, no segundo turno da eleição presidencial de 1989. Alberico era satanizado pelos petistas por ter sido o principal responsável pela edição (favorável a Collor) do debate exibido nos telejornais da TV Globo. “Não vou brigar com a Globo, não é, Cesinha?’’, teria dito o hoje presidente da República.
Na entrevista de Caetano Veloso, está, para Zuenir, a frase que resume melhor a possibilidade de um “novo 68’’: “Para ser [uma coisa] parecida com aquilo, tem de ser muito diferente daquilo’’.
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